domingo, abril 19, 2026

 

O Espelho e o Vento



A luz do entardecer entrava pela varanda, mas Raul preferia a luz fria do banheiro. Ali, diante do espelho, ele ensaiava o que ser. Ajustou a gola da camisa de linho, tentando conferir ao reflexo a dignidade de um homem que, embora sentisse o peso dos seus 75 anos, ainda se considerava um protagonista.

— Você está demorando de novo, Raul — a voz de Clara veio da sala, leve e despretensiosa.

Ele saiu do banheiro e a encontrou encostada na porta, ainda usando as roupas de ginástica que pareciam uma segunda pele. Clara, aos 30 anos, não precisava de espelhos para se validar; ela era puro movimento.

— O tempo exige mais preparo de uns do que de outros — ele respondeu, com um sorriso que tentava esconder o cansaço. — Eu estava pensando no que você disse ontem. Sobre o meu narcisismo.

Clara deu de ombros, caminhando até a mesa e pegando uma maçã. — Não foi um insulto. É só que você gasta muita energia tentando convencer o mundo de que ainda é o mesmo. A realidade é mais relaxante, sabia?

Raul sentiu a pontada de frustração. Aproximou-se dela, mantendo a postura ereta que lhe custava certo esforço físico. — Você fala como se a decadência fosse um convite ao descanso. Mas eu sou um homem culto, Clara. Tenho histórias, tenho inteligência... e sim, ainda tenho desejos. O meu erotismo é a minha maneira de dizer "não" à morte. É o que me mantém interessante.

Clara parou de mastigar e olhou para ele. Não havia piedade no olhar dela, o que era ao mesmo tempo um alívio e um castigo. — Você é interessante, Raul. Ninguém nega isso. Mas você quer que eu te veja através dos seus livros e da sua mente, enquanto você me vê apenas através do meu corpo.

— Não é "apenas" o seu corpo — ele rebateu, a voz subindo um tom. — É a força dele. É essa sensualidade que você carrega sem esforço, como se o mundo fosse seu. Isso é devastador para quem já sente o prazo de validade batendo à porta.

Clara se aproximou e tocou o ombro dele. O toque era quente, vibrante, e fez Raul se sentir subitamente frágil. — O problema é que você ama o que eu represento, não o que eu sou. Você quer beber da minha juventude para ignorar o seu medo de ficar sozinho. Mas o meu corpo não é um amuleto contra a sua velhice. Ele é só... meu.

Ela se afastou e pegou as chaves da bicicleta. — Vou dar uma volta antes que o sol suma. Você vem?

Raul olhou para a rua, para o brilho ofuscante do horizonte, e depois para as próprias mãos, levemente trêmulas. — Vá na frente — ele disse, com a voz agora mansa. — Eu preciso de mais um momento com o meu narcisismo.

Clara sorriu, um sorriso que não se fixava em nada, e saiu. Raul ficou parado, ouvindo o som dos pneus da bicicleta sobre o cascalho sumindo aos poucos, enquanto o silêncio da casa voltava a lembrá-lo de que ele era uma mente brilhante em um corpo que, lentamente, começava a esquecê-lo.

  O Espelho e o Vento A luz do entardecer entrava pela varanda, mas Raul preferia a luz fria do banheiro. Ali, diante do espelho, ele ensaia...